Case Técnica

Com certeza, a maleta do agente 007 não ficou famosa apenas pelo charme de James Bond. Ela continha um verdadeiro arsenal, bem como recursos inimagináveis capaz de livrar qualquer um do sufôco. Quanto aos Técnicos de som, ou Agentes do áudio, o que será que deveriam carregar em suas cases ?

A resposta poderia ser um tanto pessoal, já que cada um têm uma necessidade e estilo profissional. Tecnicamente algumas coisas são comuns. Sobre estas ferramentas e acessórios é que vamos falar neste artigo.

Antes de tudo o técnico deve ter a case, mochila ou bolsa. Enfim um recipiente para guardar estes brinquedinhos. Nem sempre é possível carregar todos os instrumentos e acessórios, devido ao excesso de peso, mas cada um poderá criar suas prioridades de acordo com as suas experiências e preparo físico.

Além de operador, também trabalho na área de eletrônica, assim acho que o multímetro é um bom começo para o kit de uma case.

Temos multímetros analógicos e digitais. Na estrada utilizamos o multímetro quase sempre para medir tensão e, portanto, o digital é mais indicado. É mecanicamente mais resistente e também mais leve. Alguns já vêm com escalas automáticas, dispensando a escolha da tensão a ser medida, diminuindo sustos durante algumas medições. Baterias sempre novas e boas pontas de prova, são os cuidados básicos necessários.

Ainda cuidando da energia elétrica, nosso maior problema pelo pais afora, temos o medidor de tomadas. Com este instrumento podemos saber se há inversão nos condutores de energia ( fase, neutro e terra ) e se há falha em algum destes condutores.

Mas atenção, estes medidores em geral, só operam em 110 volts.

Ele detecta a presença do terra, mas não garante sua qualidade. Para tanto utilizaríamos o terrômetro, o que não é o caso.

Com uma combinação de lâmpadas acesas e apagadas é feita a indicação da condição da tomada de energia elétrica. Ver quadro ao lado.

Um ferro de solda de boa qualidade não pode faltar. Uso um ferro de solda à gás. Normalmente faço a manutenção nos cabos dos instrumentos enquanto estamos na estrada aguardando reboque ou socorro para alguns ônibus em que viajamos. Enquanto trabalho, o restante da equipe fica tocando violão, jogando bola nos acostamentos, perdendo reais em uma partida de buraco ou mesmo dormindo embaixo de uma árvore.

Podendo, tenha ferros de solda com potências diferentes. Um de 25 Watts para cabos menores, como os de áudio, e outro de 60 Watts para cabos e conectores como os das caixas de som.

Uma boa lanterna é outro ítem importante. Geralmente utilizamos a Maglite que vêm em cores diversas para agradar a todos os gostos, inclusive na cor rosa. Esta lanterna é muito resistente, possui orifício para se prender um cordão ou mesmo um aro para chaveiro. É a prova d'agua, tem ajuste de foco e na tampa onde ficam as pilhas há uma lâmpada reserva.

Pilhas AA, alcalinas são as recomendadas para esta lanterna e é sempre bom termos pilhas reservas.

Um fone de ouvido que tenha boa resposta de frequência, que isole bem o som externo e com impedância em torno de 32 ohms.

No caso dos que trabalham em estúdio de gravação, bons fones possuem em geral 600 ohms de impedância. Estes fones são alimentados por amplificadores desenvolvidos para trabalhar com estes valores. Já as mesas de som para PA, em geral, não conseguem excitar totalmente um fone com esta impedância e o volume fica realmente muito baixo em relação ao nível de ruído externo.

Uso um Audio Téchnica ATH D40 e já tive um Sony V600, ambos são muito bons.

Trabalhando com técnicos de outros países, observei que alguns trazem seu próprio microfone. E nem sempre é o tradicional SM 58. Aqui é um caso muito pessoal. Cada um prefere uma marca e modelo diferente. Não é muito comum, entre os técnicos brasileiros, levar o próprio microfone para testes do sistema de sonorização local.

É preciso ter fita crepe, isolante de cor clara ( obviamente ) ou outro tipo de fita para marcação dos canais nas mesas de som, juntamente com a caneta ou canetas ( alguns preferem marcar por nome e cor ).

Nem sempre podemos ter aquela sequência de canais que já decoramos, que com a qual não precisamos de marcação. A exemplo em festivais com varias bandas ou mesmo com uma banda de abertura ( quando não somos nós que abrimos ), não é raro ter o canal do bumbo que sempre se utilizou no canal 1 estar no canal 10. Claro é só um exemplo, por que cada um têm sua própria sequência dos canais. O próprio Gabriel Neto, que infelizmente não se encontra mais entre nós, utilizava o contra baixo no canal 1 e o bumbo no canal 2, enlouquecendo alguns técnicos de locadoras.

Um testador de cabos é uma ferramenta muito útil. Trabalho com um Sescom e com um Coleman. Ambos testam cabos para áudio e vídeo. A diferença básica entre eles é a diversidade e quantidade de conectores. Alguns dos conectores que eles possuem são:

XLR ( macho e fêmea )

Jack de 1/4 ( banana )

RCA

Bantam ( para patch bay - tipo TT )

DIN ( MIDI )

BNC

F

P2 ( 3,5 mm - bananinha para fone )

Estes testadores conferem se o cabo está aberto, se está em curto ou se está com fase invertida ( no caso de cabos balanceados ).

Adaptadores para diversos tipos de plugs são muito úteis. Para as locadoras utiliza-se quando se têm duas mesas de fabricantes diferentes. Como é o caso da Yamaha e da Soundcraft. O padrão de conecção dos Inserts é diferente. Em uma delas o TIP é a saída ( XLR fêmea ) e para a outra o TIP é a entrada ( XLR macho ). Ao se trocar de mesa deve-se trocar todos os cabos de Insert ou usar adaptadores. Temos os seguintes modelos:

XLR macho x macho

XLR fêmea x fêmea

XLR macho x 1/4

XLR fêmea x 1/4

RCA fêmea x 1/4

RCA macho x 1/4

XLR macho x RCA

XLR fêmea x RCA

Os citados acima são apenas adaptadores. Temos também os transformadores de impedância, isoladores, inversores de fase, PADs e ground lifts.

Os Isoladores possuem 600 ohms por 600 ohms e ganho unitário. Utilizamos para isolar equipamentos ligados em redes diferentes. A exemplo quando o sistema de PA irá fornecer áudio para rádios, TVs ou estúdios móveis. Estes isoladores protegem seu sistema de descargas ou retornos de energia via carcaça. Utilizo o Sescom IL 19.

Os PADs são redutores de sinal. Existem mesas com alta sensibilidade de entrada mas que não têm o controle de PAD para se reduzir um sinal muito alto vindo de um determinado microfone ou instrumento. Por exemplo as mesas Spirit. Conecta-se em série com o cabo do microfone e ele reduz o sinal em 10, 20 ou 30 dBs, de acordo com o redutor.

Os Ground lifts, desconectam o terra do pino 1 do XLR para evitar ruídos provenientes de diferença de potencial entre os terras. É o mesmo sistema utilizado em aparelhos e direct boxes.

Os Inversores de fase são apenas dois conectores XLR ( macho e fêmea ) em que um dos lados os pinos 2 e 3 são invertidos, gerando assim uma inversão de fase em 180 graus.

CD's que você conheça bem, são ótimas referências para se completar o alinhamento de um sistema.

Além dos CD's de música ou efeitos especiais, temos os CD's de teste. Estes discos oferecem diversos sinais. São sinais utilizados para alinhamento de PA, testes em estúdios e sinais para sincronismo entre máquinas gravadoras.

Sinais fornecidos:

Ruido Rosa

Frequências puras de 20 a 20 KHz

Varredura de frequências ( sweep )

Voz masculina

Voz feminina

Bumbo

Caixa

Contra Tempo

Tontons

Pratos

Baixo

Guitarra

Violão

Piano

Teclados

Percursão

Teste de fase com sinais em fase e invertidos

Efeitos especiais

EBU

SMPTE

Estes sons de instrumentos e vozes servem tanto para se conferir o sistema como para se programar os efeitos a serem utilizados durante o show.

É para o músico extremamente cansativo ficar duas horas tocando a caixa da bateria para o técnico ajustar o reverb. Ou mesmo, o próprio técnico ficar horas falando: Alô, teste, som, um, dois, três, teste, até encontrar o delay e o reverb que serão utilizados nas vozes.

Para o estúdio de gravação estes discos também são muito úteis. Além de todos estes sons, vêm para sincronismo sinais como o SMPTE e o EBU, que podem ser gravados em fitas. Como dica deve-se utilizar um compressor durante esta gravação, para tornar o sinal mais estável.

E finalmente, o sinal A-440 como referência para afinação.

Phase Polarity Analyser ( testador de fase acústica ). Este é da maior importância tanto para o técnico quanto para o "PAzeiro" . Este aparelho mede a fase dos alto falantes, drivers e tweeters de todo o seu sistema.

Ao se utilizar o Phase Check, deve-se fechar o volume de todos os amplificadores e abrir o volume somente do canal que alimenta a caixa em teste, para que uma caixa acústica não interfira na medição da outra.

São duas partes: Uma que gera o pulso ( com sinal de áudio ou via alto falante interno ) e outra que lê o pulso através de um microfone embutido.

Podemos utilizá-lo, por exemplo, para medir a fase dos microfones. Como utilizamos diversas marcas e modelos, uns podem ter polaridade diferente em relação aos outros ( utilizam o pino 3 como positivo ).

Para este teste, monte um sistema simples com uma mesa e um monitor. Ligue o gerador de pulsos na mesa e confira a fase no monitor. Agora ligue o microfone na mesa e capte o som do gerador de pulsos com o microfone e confira a polaridade. Deverá ser a mesma para todos os microfones, caso contrário, basta retirar o conector XLR do microfone e inverter os fios dos pinos 2 e 3.

Certa vez conheci um técnico americano que utilizava uma case que parecia ser para microfones. A base era em espuma com 24 furos redondos. Em seu interior haviam 24 latinhas de cerveja. Segundo ele, eram as 24 coisas mais importantes para se utilizar em uma case.

Dependendo do teor alcoólico, acredito que o resultado do show possa ser bastante alterado.

O decibelímetro, hoje em dia muito usado pelos donos de casas noturnas e fiscais do meio ambiente, pode ser digital ou analógico. O digital pode armazenar dados fornecendo-nos o nível máximo de pressão sonora, o mínimo e o médio utilizados em um determinado período. Controles básicos são: Curva A ou C. A curva A, com queda gradativa abaixo dos 500 Hz, se aproxima da curva de audição do ouvido humano, a níveis médios de pressão sonora. A curva C é quase Flat.

Possui controle de velocidade de resposta ( Fast-Slow ) e o nível de pressão sonora recebido. Variando em média, de 60 à 130 dB SPL.

Q-BOX - Este é um lançamento da Whirlwind. É uma ferramenta muito útil para técnicos que trabalham com instalação, músicos e para o pessoal de PA. É uma pequena caixa com presilha para o cinto e têm multifunção.

Este equipamento é um gerador e receptor de sinal de áudio com níveis de microfone e linha, testa a presença de phanton power, é intercom ( comunicador ) e também um mini amplificador para instrumentos.

Possui conectores XLR macho e fêmea e também conector de 1/4 ( banana ). Por estes conectores os sinais são enviados ou recebidos.

Para o músico este equipamento é utilizado como um pequeno amplificador para o seu instrumento ( guitarra, contra baixo e etc. ). Pode ser utilizado com fones de ouvido para que não pertube seu companheiro de quarto ou parceiro, ou utilizar seu pequeno alto falante interno de 2,25" de diâmetro. Como funciona também com bateria de 9 volts, poderá ser utilizado em transito, como por exemplo, dentro do onibus da banda naquelas viagens infindáveis.

Para o pessoal do PA uma aplicação básica é testar as linhas de microfone no palco antes da instalação dos microfones. O Qbox possui um gerador de 440 Hz que pode enviar sinais a -50 dB, -20 dB ou +4 dB. Se todos os ganhos e equalizadores da mesa de som estiverem ajustados com o mesmo valor, ao se aplicar este gerador de sinais nos cabos de microfone poderemos testar se este canal está chegando à mesa de som e se o sinal está balanceado. Isto poderá ser monitorado pelo VU ou Bargraph da mesa de som. Se algum canal modular menos que outro é possivel que o problema esteja no desbalanceamento do cabo. Iste cabo deverá ser substituído para se evitar a captação de ruídos.

Ao mesmo tempo que se testa o balanceamento e funcionamento deste cabo, verificamos se há a presença de phanton power na linha. Através de um led verde e um vermelho monitoramos a presença desta tensão nos pinos 2 e 3 respectivamente.

Para as montagens maiores como o carnaval, se torna indispensável por que ao longo dos 600 metros, ou mais, de avenida pode-se comunicar com a central e testar se o sinal está chegando em todas as torres de delay com o mesmo pequeno aparelho.

Tanto para o pessoal da sonorização quanto, de Iluminação, produção e etc., outra aplicação é de intercom. O Qbox possui um microfone interno para que se possa comunicar com mesas de som ( talkback ) ou com outros Qbox. Ao se utilizar a saída para fone de ouvido automaticamente desliga-se o alto falante interno.

Um detalhe muito importante é que se ao utilizar fone de ouvido com conector de 1/4 mono deve-se abrir o aparelho e trocar de posição um jamper. Esta troca é para se evitar a queima dos circuitos internos devido ao curto gerado pela falta de carga no ring ( anel ) do conector de 1/4.

Sempre que não estiver sendo utilizada a fonte interna de sinal ( 440 Hz ) deve-se deixar a chave seletora de nível na posição +4dB. Nesta posição a impedância de saída estará em seu nível máximo 20 Ká , minimizando qualquer efeito de carga na entrada da seção de monitor do próprio Q box.

A cada dia novos equipamentos mais potentes são lançados. Níveis altíssimos de SPL já são alcançados. Assim nos proteger de um nível muito alto durante um período de tempo muito longo se torna imprescindível. Protetores auriculares são indispensáveis. Um bom par destes protetores deve fazer parte de nosso arsenal.

Um canivete suiço ( Swiss Champ ) é pequeno, durável e muito prático. Nas emergências abre suas garrafas de refrigerante com a mesma rapidez de um abridor convencional. Possui saca rolhas para quem prefere vinho. Lixa para as unhas e tesoura para você cuidar da aparência ( o que é muito importante ). Possui até mesmo lupa para quem se incomoda com os óculos. Régua que auxilia na medição de distâncias para cálculos de torres de delays. Tudo isto e mais alicate, chaves de fenda, philips e lâminas de corte, tudo devidamente acomodado.

Oxidação é o que não falta pelas nossas bandas. Os jacks e os plugs se oxidam e os contatos falham. Temos ferramentas e líquidos para tratar estas anomalias. Os Burnishing Tools são ferramentas em formato dos plugs de 1/4 e TT. Uma dessas ferramentas é uma microlixa em que conectamos no jack e lixamos seus contatos. A segunda ferramenta é um plug com um orifício no centro e que após conectado no jack, aplica-se um liquido em seu interior que irá atuar diretamente nos contatos. Os líquidos são produzidos pela Caig. Basicamente utilizamos dois tipos. O DEOXIT 5 que retira a oxidação do contato e o ProGold que é aplicado para criar uma camada protetora, aumentando a durabilidade deste contato.

Cuidados especiais com esta case você deverá ter sempre. Siga os mandamentos:

1- Evite deixá-la em cadeiras de rodoviárias e aeroportos.

2- Sempre que possível, viage a 2 metros no máximo de distância.

3- Mantenha seus instrumentos e ferramentas dentro de uma ordem para que os localize com rapidez sempre que precisar, mesmo que falte iluminação.

4- Não deixe o pessoal da Sata carregá-la até o avião.

5- Prepare-se para ser barrado em todos os detectores de metal dos aeroportos. Algo incômodo mas inevitável, tanto que já me acostumei. Ao chegar do outro lado do detector, abro logo a case para agilizar o processo de fiscalização.

6- E como ela constitui uma extensão do próprio técnico, procure mantê-la o mais apresentável possível.

7- Mantenha-a trancada e de preferência não guarde a chave dentro da própria case.

8- Sem sigilos, identifique-a com seus dados.

Mas se com todos estes cuidados, ainda assim alguns ítens desaparecerem da sua case, não se desespere pois nem tudo está perdido: Todos estes produtos são fornecidos pela DGC Audio.

Grande abraço,

Denio Costa

 

 
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