| Causo
1 Olá amigos, sei que não sou o único a ter passado por apuros e me desdobrado para fazer com que o evento acontecesse. Assim, é possível que voces se identifiquem com alguns causos que contarei nesta e em outras edições. Foram situações de dificuldade e que a técnica ajudou a solucionar. Gostaria de dedicar este artigo aos diversos „Magivers‰ do áudio brasileiro. Durante a campanha para governador do estado de Minas Gerais, no ano de 1986, eu era responsável pela equipe técnica de sonorização. Estávamos na cidade de Alvinópolis montando o equipamento, enquanto outra equipe montava fogos de artifício e fixava faixas. O carro de som já fazia chamadas ha dois dias e o palco foi montado no dia anterior. Até então tudo ia bem. Mas nesta nossa profissão quando as coisas estão indo bem, pressentimos que algo está errado está para acontecer. Como diz a lei de Murph: Fique calmo, sempre pode piorar. Muito bem, viajamos sem a bateria acústica, pois a banda que nos acompanha levava sua própria bateria. Fui informado, no dia anterior que naquele evento uma outra banda é que iria se apresentar. Então liguei para o escritório da firma e perguntei sobre a bateria. O Zezinho, proprietário da Art Som-BH, disse que já havia conversado com o responsável pela banda e que eles levariam a bateria. Às quatro horas da tarde chegou o conjunto. Estes eventos começavam às 18:00 horas para que o candidato chegasse a outras cidades a tempo de cumprir outros compromissos. Os músicos desceram do ônibus e logo perguntei ao baterista se os roadies poderiam montar a bateria para passarmos o som. Tudo deveria ser bem rápido, já que o evento começaria às 18:00 horas. Mas, para minha surpresa, ele me respondeu com uma pergunta. Bateria ? mas não vai ser a de vocês ? Mal entendido ou não, começou ali o meu problema. Ele trouxe apenas o pedal de contra tempo e os pratos. Não me perguntem porque ele trouxe o pedal de contra-tempo e não trouxe o de bumbo e nem a caixa. Deixei o restante da equipe montando os demais amplificadores para instrumentos e instalando os microfones, enquanto eu tentava conseguir uma bateria na cidade ( como andei naquele dia ). Descobri que na igreja matriz havia uma fanfarra que possuia uma bateria. Voces não imaginam como ela era horrível, mas ao mesmo tempo maravilhosa. Claro! Era a solução do problema. Para minha surprêsa não havia pedal de bumbo. Segundo o padre, o baterista, que era de uma cidade vizinha, levava o próprio pedal. Agradeci ao padre, mas nao a dispensei. Disse que eu iria tentar outra em melhores condições. Batendo de porta em porta cheguei à casa de um comerciante, que por lazer tocava bateria. Fomos convidados a entrar e conhece-la. Em uma sala enorme, com um tapete branco e felpudo, lá estava ela. Preta, maravilhosa, brilhante, muito limpa, zero KM e se chamava TAMA. Não conseguiria descrever com clareza minha reação e fisionomia. Fiquei tão surpreso e aliviado que meus olhos pareciam saltar do rosto, sem contar o sorriso estampado. Conversando com o provável salvador da pátria, ele se vira e pergunta: Onde vocês irão usar minha bateria ? Prontamente expliquei: Vamos usá-la em um „showmício‰ na praça. A expressão no rosto dele mudou radicalmente. O que? Vocês vão usar minha bateria para ajudar aquele candidato ? Mas, nem morto. Vocês não sabem que somos inimigos mortais e que eu quero mais é que ele perca esta campanha ? Me perdoem, mas a porta de saída é aquela. Fui murchando e a visão que tinha era a da bateria se distanciando à minha frente até sumir no horizonte ( conseguem visualizar ? ). Acreditando que aquele instrumento de fanfarra antes rejeitado, era realmente a única alternativa, corri novamente até a igreja e peguei a bateria fui para o palco montá-la. Correndo contra o relógio, montei-a e deparei com o problema da falta de pedal para o bumbo. Fiquei alguns instantes queimando fosfato, olhando para o chão e pensando em uma saída. Havia pouco tempo que o SPX 90 tinha sido lançado e como sou curioso, adoro ler manual e conhecer os equipamentos, estava por dentro dos recursos do aparelho. Pois bem, me veio à mente usar o Freeze do SPX ( congelamento ) para armazenar um som como o do bumbo e dispará-lo com um chaveamento via curto circuito em um cabo. Eu estava pensando em uma forma de fazer um trigger ( disparador ). Este aparelho armazenava até 500 milisegundos de informação. O suficiente para nosso objetivo. Pode-se ainda selecionar o tempo de início e fim da informação. Se por exemplo gravei um sinal com 500 ms mas a informação que preciso está entre 100 e 400 ms, posso eliminar os primeiros e os últimos 100 milisegundos. Se eu gravasse meu nome na memória teríamos: „Denio Costa‰ . Diminuindo o tempo poderíamos ouvir somente „ nio Cos‰ . Como ele pode gravar um sinal sobre o outro ( overdub ), atente para não deixar o volume da entrada aberto por que ele poderá gravar outro sinal sobre o já gravado. Boa parte dos processadores de efeito possui este recurso. Mas como disparar o som do SPX? Inicialmente pedi ao baterista que tocasse no surdo. Fui equalizando para que se aproximasse ao som de um bumbo e gravei-o na memória do SPX. Assim, sempre que eu disparava a chave de trigger no painel do processador saía o som gravado. Eu não poderia fazer isto manualmente. Era impossível. Precisava criar uma forma de disparar este som e com certeza, a melhor pessoa para executar esta tarefa seria o baterista. Olhando para cima e vendo as faixas instaladas entre os postes e no alto do palco, me veio a luz do professor pardal. Peguei o pedestal de contra-tempo da fanfarra e improvisei um disparador. Com um cabo longo „banana - banana‰ ( 1/4 por 1/4 ), liguei um dos lados no processador em sua entrada de trigger e a outra extremidade cortei e abri o cabo. Liguei o positivo do cabo na haste do pedal. Isolei a base do pedal com fita crepe e improvisei uma mola com o arame que prendia as faixas. Prendi este arame na base do pedal e liguei o fio terra do cabo. Sempre que o baterista pisava no pedal de contratempo e fechava um curto no cabo, este por sua vez disparava o trigger do SPX e consequentemente eu tinha o som do bumbo no PA. Todos comemoraram quando o baterista começou a tocar. Foi uma maravilha, uma festa. O evento por começar e tudo pronto. Mas para minha surpresa, o baterista disse que havia algo errado. Ele não estava conseguindo tocar no tempo certo. Aquela engenhoca não funcionava por que havia um atrazo entre o momento que ele tocava e o momento em que ele ouvia o som. Tristeza geral. Alguns músicos chegaram a pedir para ele se sacrificar e tentar daquele jeito mesmo. Mas era realmente muito dificil tocar e depois de algum tempo ouvir o que foi tocado. Testando a engenhoca, como foi apelidada, percebi que ela disparava o som quando eu desfazia o curto no cabo e não quando eu fechava o curto. Pensei, estava ali a chave do problema. Rapidamente inverti a posição da „mola-arame‰. Ela agora estava na haste do pedal e ficava em curto porque o pedal ficava normalmente para cima. Quando o baterista toca ele desce. E assim foi. Inverti a posição e pedi para ele tocar novamente. Perfeito, agora estava sincronizado. Começou o show e fui para a mesa de som operar o som da banda. De repente o baterista me chama ao palco. Fui correndo e deixei outro técnico na mesa de PA. Como a mola era feita de arame, passei todo o show ao lado do baterista e entre uma música e outra eu refazia a pressão da „mola-arame‰. Ela ia encolhendo e obviamente não retornava, precisando de um pequeno auxílio. Enfim, funcionou. Fizemos o show, toda a campanha e o candidato ganhou. Por isso é muito válido se conhecer o material com o qual se trabalha. Confesso que não suporto ler manuais que não sejam da nossa área, mas os que tratam de áudio é um prazer. Como trabalhamos com áudio, devemos sempre estar por dentro dos recursos do nosso equipamento para que possamos usufruir de toda a sua tecnologia. Grande abraço, Denio Costa. |
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